Dulce, this one is for you ;)
Acabámos de vir de um agradável almoço, numa tasquinha lá para os lados de não sei bem onde, mas que serve sempre de abrigo às nossas habituais tertúlias.
Junta-se a fome com a vontade de argumentar e damos por nós a esgrimir pontos de vista, como se disso dependessem as nossas vidas.
Fico sempre empolgada quando assim é: sinto que enquanto formos assim, é sinal que o nosso espírito permanece jovem, inconformado e preocupado com o que nos rodeia.
Por mais que discordemos ( e como é nítido o fosso entre opiniões!) prefiro a paixão de uma discussão acesa, que o árido conformismo.
Falámos de casamentos entre pessoas do mesmo sexo e numa coisa estamos de acordo: não caberia a este Governo legislar sobre um tema que não é, de todo, prioritário na conjuntura actual.
De qualquer modo, e porque se impõe, esbracejamos e esganiçamos o mais possível e no final, por menos que tenhamos chegado a um consenso, apercebemo-nos de que da diferença nasce o diálogo e as ideias.
E porque este post resultou de um confronto com a minha querida e estimada Dulce, passo a citar alguns dos seus pontos de vista, servindo-me deles como mote (com a devida vénia e o costumado respeito:))
“
Andamos todos muito eriçados a debater as orientações sexuais, quem pode e quem não pode dar o nó, quem leva o véu e quem leva o bouquet, enfim, andamos todos concentradinhos num mero capricho de uma minoria que, ainda para mais, só se lembra de ter voz activa na sociedade quando o tema lhes faz cócegas no umbigo.” – (“
Ainda há lodo no Cais” –17 de Fevereiro de 2009).
Claro está que logo aqui os meus ânimos começam a exaltar-se, por me ressaltar à vista as palavra
capricho, minoria e
voz activa.
Não posso, de forma alguma concordar que um direito contitucionalmente conferido seja rotulado de capricho.
Há cerca de 50 anos atrás poder-se-ia achar igualmente absurdo, o direito de voto das mulheres e por alguma razão a sociedade mudou. Por absurdo ser permitir-se tamanha ignorância e arbitrariedade.
Poder-se-ia achar que ser-se mulher é uma característica congénita do ser humano e que ser-se homossexual, não o é. Venha aquele que cientificamente comprove que a orientação sexual não é mais que um cromossoma genético, ou uma traço de ADN, como outro qualquer.
Para já e segundo os últimos estudos de que tenho conhecimento, nada aponta para o contrário.
E partindo deste pressuposto, de que a orientação sexual não é uma escolha ou um devaneio, mas antes uma simples circunstância genética, vedar o acesso ao direito de casar a pessoas do mesmo sexo, é para mim tão cabal, quanto fazê-lo relativamente a pessoas de cabelo ruivo.
Para além do mais, gostaria de debater a legitimidade de negligenciar uma minoria social, como se esse entrave mental já não tivesse sido superado pela nossa Constituição e pela própria civilização ocidental.
Entraríamos no campo do absurdo, ou de uma redundante perda de tempo, se voltássemos a (des)considerar um grupo restrito de pessoas, como uma inexistência de facto.
Entre outros preceitos alusivos a este ponto, destaco o n.º2 do art.114º da CRP “
É reconhecido às minorias o direito de oposição democrática, nos termos da Constituição e da lei.”
No que toca à “
voz activa” deste grupo, gostaria também de referir que um homossexual, à semelhança dos demais cidadãos da Republica Portuguesa, não carrega consigo um cartaz, ou uma braçadeira ao jeito de Estrela de David no tempo da Alemanha Nazi, a auto designar-se de “
Gay”, logo se alguns deles terão ou não intervindo de forma diligente na nossa sociedade, disso não sei, porque não os vigio no aconchego do lar.
Tanto quanto me é dado a conhecer, qualquer membro do Governo, ou de uma qualquer partido político, associação ou ordem religiosa, pode ser homossexual, sem que isso avulte nas suas convicções.
Arrumado este ponto, passamos ao seguinte: “
Ao contrário do que ocorreu outrora (nos tempos de Harvey Milk) hoje os homossexuais não são vítimas de qualquer discriminação por parte da nossa sociedade e não precisam de absolutamente NADA para viverem em paz a sua orientação sexual. Nem sequer para "ter" criancinhas, já que as podem adoptar enquanto pessoas singulares (e ninguém lhes pergunta com quem dormem!).”
Afirmar uma coisa destas é alhear-se por completo da realidade em que vivemos.
Uma vez mais menciono a discriminação de géneros, ainda tão presente nos dias que correm. Ignorar uma realidade ríspida e injuriosa como esta, é remetermo-nos a uma cegueira deliberada.
Qualquer casal homossexual que se preze e por mais que se queira negar este facto, não é plenamente livre de ter manifestações de afecto em público, sem ser malvisto, ou assumir abertamente a sua orientação sexual quando, por exemplo, se candidata a um cargo político.
Aliás, poder até podia. O problema é que estaria, antecipadamente a assinar a sua sentença de derrota.
Quanto a adoptar “
criancinhas” a título individual: será tão fácil para um homossexual, como para um heterossexual, salvo se for descoberto esse “pequeno” detalhe chamado...orientação sexual.
E sim! Também estou perfeitamente de acordo com a adopção de crianças por parte de casais do mesmo sexo, por diversos motivos.
Começando pelos objectivos/científicos: estudos neste sentido, demonstram que não existe qualquer correlação entre a orientação sexual dos pais e aquele seguida pela criança.
Por outro lado, escusado será referir a estatística avassaladora de casais heterossexuais, incapazes de manter uma estrutura familiar una e conveniente ao crescimento saudável de um ser-humano.
Como é sobejamente conhecido, as crianças não ouvem, observam.
Quer isto dizer, que por mais que lhes recitemos os Lusíadas, a Bíblia ou as mais eloquentes lições de vida, se não formos exemplos do que perfilhamos, qualquer palavra é oca e estéril.
É o mesmo que fazer aquele exercício de repetir 100 vezes a palavra amor: à 10ª vez, deixa de ter qualquer significado. Assim se educa uma criança: conferindo-lhe padrões sólidos e harmoniosos que possam carregar ao longo do seu percurso.
Outro elemento importante nesta discussão surge um pouco em jeito de “
Quem nasceu primeiro? O ovo ou a galinha”, sendo que nesta situação a resposta é clara e inequívoca.
Diz-nos o art. 36º, n.º 1 da Constituição que “
Todos têm o direito de constituir família e de contrair casamento em condições de plena igualdade.”.
Para quem possa, eventualmente, ter problemas oftálmicos, entre família e casamento, foi colocado um “E” e não um “OU”, isto é, qualquer um destes direitos é independente e sem conexão necessária.
Por outras palavras e porque o simplismo é muitas vezes o melhor aliado de quem se quer fazer entender: não há cá “casamento de penáltie”. Só marca, quem quer, porque rematar está ao acesso de qualquer um.
Para além deste pormenor linguístico, também se pode ler TODOS ao invés de OS HETEROSSEXUAIS ou os cidadão de cabelo loiro, ou, ou, ou...Creio que também este item está esgotado.
“
Numa altura em que cada vez menos gente se casa, pois bem, os homossexuais andam todos desertinhos para dar o nó. Vá se lá perceber. Bem vistas as coisas nem é assim tão difícil de se perceber: são diferentes e têm uma estúpida e irracional necessidade de se mostrar diferentes. Basta andar na rua para perceber que quando assumem a sua sexualidade são ostensivos nos comportamentos que têm em público - bem mais que os casais heterossexuais.”
Excelsa tertuliana, se cada vez menos gente se casa talvez se deva em larga medida, à malta de géneros opostos que arruinou sem contemplações o instituto do casamento, motivados esses sim, por um capricho adolescêntico, olvidando que votos, não são soluços de bêbedos, que divórcio não é uma muda de roupa e, como se não bastasse, que “juntar os trapinhos” não é uma questão de moda, sendo que nos dias que correm, quem casa, está logicamente out!
“
Nada vejo na sociedade actual que obste a que levem uma vida normal, como qualquer outro indivíduo; nada os impede de ascender a cargos políticos de relevo (a Islândia é liderada por uma mulher que sempre se assumiu homossexual e por cá, políticos homossexuais é coisa que não falta); nunca ouvi dizer que numa entrevista de trabalho questionassem a orientação sexual do candidato; nem tenho memória de haver crimes perpetrados com base na discriminação sexual (já da racial...).”
E mais uma vez não passeamos pelas mesmas ruas, porque a ostensividade que referes surge-me das mais diversas proveniências, e por uma questão de probabilidades, muitas mais vezes por parte da maioria....os heterossexuais (ou pelo menos assim os julgo...ou serão homossexuais que ainda não “
saíram do armário”!?).
Se antes estamos a falar de manifestações arrojadas das mais elementares convicções, tais como gay parades e afins, por mais que não frequente, compreendo o racional que lhe subjaz: é exactamente o mesmo que levou as mulheres a queimarem soutiens, Mahatma Gandhi a passar fome e o festival de Woodstock a ser uma grande “cowboyada”.
Infelizmente andamos todos de pijama a dormitar sobre o instituído, seja ou não válido ou legítimo, doa a quem doer. De vez em quando, há que fazer “
barulho” para despertar algumas consciências em profundo e ancestral estado comatoso.
Quanto ao que se passa na Islândia, acho que referir que é um estado insular poderá bastar...qualquer outra situação paralela, será igualmente uma raridade, para meu descontentamento, mas mesmo assim um caso singular.
De qualquer forma, importa atentar para o denominador comum entre esses “paraísos” da tolerância: todos eles são, unanimemente considerados pelo Mundo, como de desenvolvimento acima da média. Curioso, não?!
“
E, lamento desiludir, mas não nos tornamos num país progressista por permitirmos o casamento entre homossexuais. Quando muito, essa mudança pode rotular-nos de "modernaços"... mas modernidade não é necessariamente sinónimo de desenvolvimento civilizacional.”
Concordo! Mas não somos progressistas, tão somente porque preferimos ser acomodados e modernaça serei hoje, amanhã talvez não.
Quanto ao desenvolvimento civilizacional, esse oásis de contornos tão difíceis de delinearmos, este pressupõe tempo, planeamento e visão, mesmo que tenham tido origem em épocas remotas.
Fomos visionários aquando das Descobertas, hoje nem reinventarmo-nos conseguimos.
Continua a ecoar nos meus ouvidos, palavras de profunda ignorância proferidas por líderes partidários, tais como que
o casamento é a fundação de uma família, porque visa a procriação e como tal, apenas se destina a pessoas de sexo oposto.
Perdoai-lhes Senhor! Que eles não sabem o que fazem! Sobretudo quando, com este admirável cliché, se apartam de realidades tão prementes como casais heterossexuais que não podem ter filhos biológicos...nesta lógica, marido e mulher infecundos, não são família, ou simplesmente, não existem socialmente.
Termino agradecendo às minhas caríssimas colegas a oportunidade de debatermos pontos de vista, sem perdermos o Norte da racionalidade.
Nota Editorial: No final do dia em porvavelmente em reconhecimento da boleia que lhe dei, a destinatária tentou oscular-me na boaca. Está explicado!:)